sábado, 15 de março de 2008

Viagem

Pode ter acontecido com você. Entra no ônibus certa moça de feições agradáveis e senta ao seu lado: a partir daí nada é mais o mesmo. Poxa, ao meu lado? Havia mais lugares? Havia mais muito-mais lugares. É hora de manter a calma e agir normalmente – dada a mínima probabilidade de ela ter se interessado por você, o que, de fato, pouco importa no momento.
Os braços, onde os manter? Por algum tempo procura uma boa posição, evitando movimento bruscos. Nesse ínterim, a moça mexe no cabelo. Opa!, li em algum lugar que mexer no cabelo é sinal de sedução (sem dúvida, um estudo relevante). Volte a respirar, volte a respirar.
Passam-se minutos assim: olhando para a janela, para o corredor, tentando aumentar o campo visual em relação a ela. Os braços continuam imóveis, agora meio dormentes. Lembra-se, então, que está em desvantagem, já que as mulheres têm uma visão periférica muito melhor; ela provavelmente está lhe vendo.
Num nada de segundo, as pernas se tocam, seja por obra do destino ou da prefeitura que forçou a curva. Vocês não as recuam, tornando o jogo crítico. E agora? Ela já sacou tudo, meu caro, não adianta fugir e dar uma de fraco publicamente.
Nos momentos seguintes você tenta aproximar o braço dormente mais alguns milímetros da fulana, à espera de alguma reação. Ela não reage, pois, certamente está se fazendo de difícil.
Mais minutos passados, ela ajeita a bolsa, o que a leva a encostar levemente em seu braço. Bingo! Você estava certo, campeão. É hora de investir: pense, pense!
Das muitas táticas e maneiras para a abordar, você escolhe uma e se prepara: poucos movimentos, pulso zero. Antes do ataque – talvez alertada pelos sentidos aguçados (ou simplesmente porque chegou ao destino), ela se levanta e desce. Assim?
Sobrou aquela sensação de ter conquistado uma namoradinha. Foi um flerte que, no voar do pensamento, resultou em casamento, filhos, netos e caixões lado a lado.
Na verdade ela não fez nada, apenas esteve ali; o resto foi um teatro seu, sozinho, monótono monólogo. Mas ela lhe marcou. Ah! Isso sim.
Espero-a numa próxima viagem.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Finnegans

Finalizo aqui este blog.
Faço isso não por falta de material - há muitos outros acumulados que, como os já postados, estão escritos há três anos ou de épocas mais recentes -, tampouco por desgostar do que produzi: simplesmente não quero me expor dessa maneira (talvez até ao ridículo).
Acredito que antes de lerem os poemas, eles devam passar por uma boa análise, se é que algum dia isso ocorra, para a real avaliação, se são válidos. Quiçá isso aconteça postumamente (certamente não será por meio de blogs).
Há muitos talentos e coisas boas por aí, assim como coisas ruins. Não preciso citar nomes pois acho que, no fundo, vocês sabem das qualidades e defeitos dos blogs. Também não sei em qual me encaixo - os comentários não são muito esclarecedores (e aí também me incluo).
Agradeço aos que gentilmente visitaram.

Finalizo aqui este blog.
(ou não)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Doce deleite

adoro quando
sobramos
eu e você

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Três haicais em homenagem ao novo pai: Bith.

Ser um novo pai:
tanta emoção que não cabe
somente num haicai

Com ou sem convite
surge uma nova persona
na vida de Bith

Pior que o trabalho
de parto, pra Bith, só
trabalho onomástico

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Cá estou novamente nos blogs.
Para começar, segue um sonetinho meu:

Soneto da falta do que fazer

Um soneto me pus a escrever.

Tantos recursos e com formas várias,

Vou fazê-lo, a saber, heróico e sáfico:

Eis o soneto sobre o não-fazer.


Agora vem o pior: qual assunto

Pretendo escolher para completar

Mais uma estrofe. Assim, outra

Foi. Agora os tercetos – vêm profundos.


Talvez não tão profundos, mas sei que

Em mais um verso passarei batido

No assunto. Homessa! Vem metido

A inglês. Nem controle agora eu tenho.


É melhor eu sair bem de fininho.

À Gregório, termino este versinho.